Adeus e até Deus

Adeus

A esta primeira palavra aqui epigrafada vou dar-lhe quinze significados à luz da fotografia (nº 1) aqui publicada.

            Primeiro: cronológico, pois foi tirada na quarta-feira, dia quinze de janeiro de 2020 (dia litúrgico de Santo Amaro) pelo Fernando Areias que na estrada nacional de Guimarães a Vila das Aves (concretamente no início da subida do “pai dos pobres, em Lordelo) reconheceu o ciclista padre Fernando de Azevedo Abreu e lhe perguntou pelos outros ciclistas; a resposta rápida foi esta: quando o tempo está chuvoso, a tentação de ficar em casa é mais forte. Mas eu nunca esperava que setenta metros depois da ultrapassagem, o Areias tenha parado o seu automóvel para pegar “especificamente”  no telemóvel e fotografar este ciclista que desde então jamais pedalou, pois no sábado seguinte recebeu telefonema (às 11,59 horas) do hospital de Alfena para lá comparecer na manhã de terça-feira, dia 21 de janeiro de 2020 para ser operado a um (maligno) tumor cerebral e de facto, o meu cérebro foi cortado uns centímetros acima da minha orelha esquerda; registo que nos treinos velocipédicos (e neste último em que fui ao Santo Amaro em Covas tive de parar duas vezes de pedalar) por breves minutos faltaram-me forças na mão direita para travar e na perna direita para pedalar; estes anónimos alarmes já eram muito respeitáveis!

            Segundo: memorial, porque eu ao ultrapassar determinados ciclistas nas subidas  acenava e dizia-lhes: adios.

            Terceiro: histórico, pois no ano 381 o São Gregório de Nazianzo (ao renunciar e ao despedir-se da sua cátedra de Constantinopla) pelo menos seis vezes ousou dizer adeus no sermão 42, e comoventemente assim pormenorizou: “adeus, meus queridos filhos, lembrai-vos dos meus sofrimentos”.

            Quarto: bíblico, porque nas Sagradas Escrituras dizer adeus antes de morrer  tem significado amorosamente pacificador; ver Gn 49; Dt 33; Mc 13,33 e Jo 13-17.

            Quinto: litúrgico, já que os fiéis participantes na eucaristia por mim celebrada, às 18 horas, na igreja matriz e S. Miguel de Vila das Aves nesse III Domingo da Quaresma do Ano A, ocorrido no dia 15 de março de 2020, ouviram-me dizer  que a Conferência Episcopal Portuguesa tinha determinado na sexta-feira passada a suspensão da celebração comunitária da Missa por causa da terrível pandemia do vírus COVID-19 que em dezembro de 2019 apareceu na China para rapidamente se espalhar por todo o mundo, ceifando descontroladamente vidas humanas. Consequentemente eu já não iria celebrar publicamente a eucaristia  para os paroquianos de Vila das Aves, habitualmente precedida pela reza do Rosário por mim meditado às “santas mulheres de Jerusalém” (que ultrapassam alguns teólogos no seu amor a Deus), pois o nosso querido Papa Francisco disse que a oração do Terço é a “oração dos humildes e dos santos”.

            Sexto: paroquial, pois eu na tarde de segunda-feira, dia 2 de março de 2020, fui conduzido (porque na tarde do dia 20 de janeiro de 2020 deixei de ser motorista)  aos Serviços Centrais da arquidiocese e entreguei pessoalmente ao Dom Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, uma longa carta onde eu (avisado que teria de fazer no IPO do Porto os necessários tratamentos de quimioterapia e concomitantemente de radioterapia por causa do maligno cancro cerebral) lhe solicitei a nomeação de outro pároco, que ocorrerá possivelmente no próximo mês de julho, para que novo ano pastoral tenha nova dinâmica com novo pároco. Consciente das inerentes dificuldades, recordo que quando fui nomeado pároco de Lousado, logo após a revolução de 25 de Abril de  1974, sete presbíteros não tinham aceitado tal paroquialidade; e antes de eu ser o pároco de S. Miguel de Vila das Aves foram quatro os indisponíveis.

Imagem n.º 2

            Sétimo: catequético, porque depois de eu ter celebrado a eucaristia das 18 horas na sexta-feira, dia seis de março de 2020, inesperadamente compareceu na nossa sacristia a catequista Dra Elizabete Roque Faria, acompanhada do seu filho Isaías que me pediu para de seguida ir ao Patronato onde ia ocorrer a sessão de catequese nº 17 (intitulada “com Jesus, amamos  os Doentes”, ver registo nº2) para crianças do terceiro ano da catequese que irão participar com um carro alegórico no nosso Cortejo Pascal em 12 de abril próximo futuro, e que irão fazer a Festa da Primeira Comunhão em 21 de junho, conforme está pastoralmente calendarizada; eu facilmente me justifiquei indisponível porque neste mesmo dia eu tinha estado no hospital de Alfena numa consulta com o Dr. Pedro Sousa que me tinha cirurgicamente operado ao temor cerebral e a este doente oncológico aconselhou que não corresse determinados riscos.

Foto n.º 3

Mas como a mãe e o filho me disseram que as crianças somente e rapidamente queriam entregar um caderno, então eu lá compareci e o recebi dentro de um envelope intitulado “Obrigado” e assinado pelas crianças conforme se poderá ver no registo nº 3 aqui publicado; mas fiquei extasiado ao ver e ler os trabalhos de cada criança e aqui registados  nos números 4 a 19.

Emocionado, eu disse às crianças ali presentes e às duas catequistas (Elizabete Roque Faria e Goreti Fernandes) o que a Lúcia (vidente das Aparições em Fátima) escreveu, depois de ter ido visitar ao hospital de Ourém a sua prima Jacinta lá internada por causa da epidemia espanhola: encontrei-a contente e feliz  por poder oferecer a Deus os seus sofrimentos. Mas eu não devo omitir aqui o que eu pedi à criança Rui para ler e que poderá ser lido nos registos nº 20 e nº 21: precisamente no dia da Páscoa do Senhor (12/4/2020) eu tinha recebido a Primeira Comunhão há 67 anos!

Adeus, crianças (que precisamente oito dias depois já tivestes a suspensão nacional da celebração comunitária da Eucaristia, por causa da reinante pandemia), crescei , sonhai sempre com a luz de Jesus, vós sois o futuro e eu vos agradeço o poder dizer-vos: morrerei com um coração de CRIANÇA.

            Oitavo: gratulatório, pois aos nossos doentes e velhinhos (benfeitores da construção do reino de Deus nesta paróquia e carregados de frutos maduros como testemunhei no nosso lar Familiar da Tranquilidade), agradeço e peço que não se esqueçam da dimensão gloriosa da Páscoa do Senhor.

            Nono: apostólico, pois não me esqueço destas palavras “preparai-vos para trabalhar arduamente” e que foram ditas aos Avenses (no dia da minha entrada como pároco, em 04/01/1981) pelo Abel Augusto Cerejeira Reis que em Lousado foi bairrista (trabalhou na Junta de Freguesia), catequista, coralista, membro do Conselho Pastoral Paroquial e que faleceu com 74 anos de idade no dia oito de outubro de 2004. Pois eu digo o meu adeus apostólico a todos os dedicados e sacrificados militantes que encontrei ao longo destes meus 39 anos e meio de paroquialidade; mas confesso que nas dificílimas deslocações às nossas doze zonas pastorais de densidade populacional (algumas, verdadeiras periferias de anonimato e de indiferença), os seis fiéis leigos, membros do Conselho Económico Paroquial (vulgo Fábrica da Igreja) e do Conselho Permanente do Conselho Pastoral Paroquial de Vila das Aves foram heroicos missionários da Esperança e por isso apostolicamente me sinto impelido a dizer-lhes um grato adeus, registando os seus nomes: Dr. Felisbela Freitas, Professora Rosa Maria Machado de Azevedo Pereira, Deolinda Azevedo Pinto, Drª Eugénia Pinheiro da Costa Dias, Dr. Nuno José da Cunha Roque Faria e António Sousa Gouveia; aos seus familiares, indireta e profundamente incomodados aos domingos, resta-me a gratidão da minha oração, especialmente na Jerusalém Celeste.

            Décimo: velocipédico, porque a minha bicicleta já está arrumada no nosso Eco Museu, conforme eu disse ao Carlos Cunha (Decano do Grupo Ases do Pedal) no III Domingo da Páscoa do Senhor (Ano A), ocorrido em 26 de abril de 2020; durante 42 minutos falámos tão alegremente que até o Carlos Cunha estava admiradíssimo; convém não esquecer o segredo: nesse domingo eu estava a agradecer a Deus o dom sacramental do batismo que recebi há 72 anos! Aos ciclistas digo gratamente adeus pelos momentos inesquecíveis não só de convívio, mas também de valores mais superiores.

Foto n.º 22

            Décimo primeiro: laboral, porque eu caçado pelo  tenebroso cancro cerebral ando a fugir desta atual pandemia global do vírus COVID-19 que  complicou a vida dos trabalhadores e dos diretores das nossas duas instituições: Lar Familiar da Tranquilidade e Patronato e Casa dos Pobres de S. Miguel  das Aves; fique bem claro que eu nunca tive pudor em declarar minhas convicções e meu contributo inestimável para se ganhar esta primeira guerra da saúde pública, mesmo que alguém não tenha estado atento aos meus procedimentos com pormenores imperceptíveis, tendo optado pela defesa dos direitos acrescidos, estultamente minimizando a tempestade da pandemia; mas tive a dita de trabalhar com diretores dedicadíssimos, sempre prontos a analisar os procedimentos no “fundamental”, pois no registo nº 22 vê-se que a “Legislação Laboral” está ilustrada com uma balança cujos pratos parecem ter peso desigual quando estivermos sensibilizados para a obrigação e direitos emergentes das relações laborais à luz do Código de Trabalho.

 Seja-me permitido referir o Dr. Tiago Vilaça (vice-presidente da Direção do Lar), pois sobre os seus ombros deleguei a espinhosa  presidência para em momentos pandémicos tão aflitivos conseguir (até à presente data) o “milagre” dos vulneráveis Velhinhos, dos seus trabalhadores e dos seus diretores não terem sido infetados pelo novo e mortífero coronavírus.

            Décimo segundo: musical, porque como presidente da Mesa da Assembleia Geral do Grupo Coral de Vila das Aves  e admirador do Grupo Pacificanto registo aquilo que foi escrito no dia 01 de outubro de 2009 pelo Fernando Pinto que veio dos “sem abrigo” e do “mundo da droga” do Porto e que admiravelmente cresceu e viveu feliz  no nosso Lar durante sete anos e mais dois meses, e onde faleceu em 10/10/2010, com 50 anos de idade: “a Música é terapêutica, não a deixemos morrer”; ouso apropriar assim: não deixemos morrer a nossa Oficina de Música, pois as medidas decretadas pelo nosso Governo e inerentes à terrível pandemia suspenderam todas as atividades.

            Décimo terceiro: esperançoso, pois os adolescentes (dos volumes 7 e 8), os  jovens (dos volumes 9 e 10), os jovens em Caminhada do Grupo Renascer, os jovens católicos do nosso agrupamento escutista e as jovens do nosso Guidismo irão manter as suas velas desfraldadas na espera de ventos favoráveis para a colheita.

            Décimo quarto: eletrónico, pois agora digo adeus à Net onde comecei a escrever a primeira mensagem na primeira terça-feira em 03 de dezembro do ano de 2002 e ininterruptamente fui escrevendo até chegar a esta última que nas minhas contas ( incluindo a que publiquei no dia do Páscoa do Senhor, em 12/4/2020), cheguei ao número das 211 mensagens.

            Décimo quinto: exequial, pois meu corpo insuperavelmente vulnerável poderá ainda viver anos para mim imprevisíveis, mas o que eu sei é que os processos degenerativos de células sorrateiramente vão infiltrar-se nos tecidos e originar metástases; embora eu não saiba que tecido cerebral saudável ainda estará no meu cérebro, claramente sei que quando eu estiver fechado no caixão fúnebre (após ter sido apagado o incêndio do sofrimento redentor), não quero flores ! O que  eu quero e ardentemente suplico é  a oração do Terço e uma Eucaristia participada em estado de graça sacramental.

            Aqui fica exarada a minha especial consolação exequial aos familiares dos paroquianos falecidos sem a habitual missa de corpo presente; mas obrigatoriamente confinado ao domicílio paroquial, eu sempre celebrei gratuitamente a eucaristia pelos falecidos, assim chamados: Teresa de Jesus da Silva Costa, Mário Augusto Nunes da Silva, Adriano da Silva Ferreira, António Freitas Pimenta, Quitéria Mendes da Silva, Maria Olívia Pinheiro Leão Gomes Ferreira (que na Ordem da Visitação tinha o nome de Cacilda), Maria Odete Ferreira Fernandes da Silva, Maria Albertina de Freitas Guimarães, Joaquim Monteiro Machado, Domingos Augusto Gonçalves da Silva, Maria Pacheco Neto, Almiro do Nascimento Lameirinhas, José Mário Gonçalves Calçada, Laurinda Pacheco da Costa, José de Brito Gonçalves e Florinda Machado. Destas dezasseis pessoas falecidas, o José de Brito Gonçalves será por mim apresentado na próxima reunião dos membros do Conselho Económico Paroquial e do Conselho Permanente do Conselho Pastoral Paroquial de Vila das Aves para ser considerado Estrela de Fé para assim seu nome ficar no Memorial, erguido no adro da nossa igreja matriz. Conheci o José de Brito Gonçalves em setembro do ano de 1980, quando eu fui professor de Religião e Moral Católicas na Escola Preparatória de Vila das Aves (que funcionou no Patronato) e onde ele era o respeitadíssimo Chefe da Secretaria. A partir do dia quatro de janeiro do ano de 1981, o senhor Brito e a sua distinta família foram meus estimados paroquianos; agora que ele faleceu há oito dias, precisamente na terça-feira, dia 28 de abril de 2020, com 90 anos de idade, eu sei que as duas eucaristias que por ele eu celebrei (no dia do falecimento e no dia da sua sepultura)  são balsâmicas para a sua querida esposa (Professora Laura dos Prazeres Herdeiro) e seus cinco filhos, três deles estimados Professores.

Foto n.º 23

            Em 24 de janeiro do ano de 2004, José de Brito entregou-me o texto que está aqui digitalizado e com o nº 23.

Foto n.º 24

            Para melhor se ponderar a sua altíssima nobreza humana e espiritual, queiram os leitores ler o que está publicado no registo 24, e que o José de Brito Gonçalves escreveu no Diário do Minho de quarta-feira, dia 4 de janeiro de 2017.

            Muito obrigado, Brito, por ter sido um bom ex-seminarista e um “leigo virtuoso, inteligente, resoluto e apostólico”, como já o Papa São Pio X desejava que houvesse em todas as paróquias.

DEUS

            Deus é a última palavra do título desta mensagem que dará o nome ao meu último livro (décimo oitavo) e que na capa estará envolvida num esplendor glorioso de luz radiante, pois Deus é que me ilumina com a doçura dos raios da Sua luz e me ajuda a dançar no palco da minha nudez para eu aproveitar a leveza das asas do nosso Padroeiro São Miguel Arcanjo e ser pesado na sua balança, bendito atributo onde o fiel será aferido em prol deste mísero fiel que viveu a teologal virtude da Esperança. Mas como no Além só permanecerá a Caridade e Deus é Amor, então lá a minha gratidão será eterna, especialmente por todos os médicos, enfermeiros, técnicos administrativos, voluntários, paroquianos e amigos que com arte e engenho santificantes foram meus imprescindíveis cireneus nas adversidades e até nos disparates mais ou menos inconscientes, mas sempre involuntários quando se estendem  no tempo e persistem até ao momento de eu nascer para a vida eterna passando pela morte cristã; atempadamente fiz o meu Testamento Vital, na net datado em 03 de abril de 2018 e que também foi publicado nas páginas 54, 55 e 56. no meu livro “O Mítico Desportivo das Aves”.

            Termino esta mensagem valorizando a foto nº 25 (tirada no momento da homilia que ele fez na Festa da Primeira Comunhão, em 20/6/2004) pois o nosso Avense Padre Dr. António Sérgio Gouveia Garcia Torres veio à nossa igreja matriz presidir à concelebração eucarística de Sétimo Dia pelo seu tio materno (Joaquim Gouveia Pereira) e eu aproveitei a soberana ocasião para publicamente lhe pedir que no dia quinze de agosto de 2020 esteja connosco a celebrar as Bodas de Prata da sua Missa Nova em Vila das Aves, pois aqui nasceu em 10/12/1970 e daqui partiu para o Seminário de Braga em outubro de 1981 (primeiro ano da minha paroquialidade); em Vila das Aves fez o Ano Pastoral. Após ter sido ordenado presbítero na Cripta do Sameiro a 23/7/1995, foi nomeado Administrador Paroquial de Morreira, Trandeiras e Lamas. Mas considerando as suas variadas e elevadas qualidades foi para Roma, em outubro de 1997, a fim de fazer estudos de especialização em Teologia Pastoral e de lá enviou artigos para o nosso Boletim Paroquial. Desde então ele tem sido o Coordenador Diocesano da Pastoral. Em julho de 1999 foi nomeado pároco de São Vítor, freguesia da cidade de Braga que é considerada a maior do Minho e que bem mereceu ter o Padre José Carlos das Neves Azevedo como pároco pastoralmente solidário.

Como eu estou de saída, a ver vamos como o novo pároco irá organizar a merecida festa jubilar.

            Vila das Aves, 05 de maio de 2020 e primeira terça-feira do mês.

                        Padre Fernando de Azevedo Abreu