Sentido do Passado Impassável

O sentido é suscitar fé viva e fervorosa prática cristã eclesial do inapagável acontecimento incruento, ocorrido há um ano, concretamente na quinta-feira, dia dezoito de janeiro de 2018, pois silenciar a memória para não reacender conflitos é uma tática pastoral para mim não vivencial, pois à amnésia rotundamente digo não; por mais que se evitem ou se reduzam conflitos, o cristão não se pode limitar à contestação, mas à gestão conflitual que deve ter espiritualidade do Ressuscitado ainda crucificado, para que haja decisão final sem perdedores nem ganhadores.

Para fazer esta laboriosa e rigorosa narrativa da memória comum, relembro que nessa referida data António Garcia Torres e Deolinda Azevedo Pinto encontravam-se no escritório paroquial, sito no Patronato, cada um no seu gabinete individual a fazer atendimento geral das 11,15 horas às 12 horas. Eu fui chamado ao local pela Deolinda Pinto porque os familiares do saudoso Augusto Figueiredo Barbosa (falecido com 91 anos de idade e em câmara ardente na nossa capela mortuária) não aceitaram a proposta da celebração exequial como os familiares da saudosa Maria Madalena Ferreira da Costa Coelho (que estava em câmara ardente na capelinha do Lar Familiar da Tranquilidade) tinham pastoralmente aceitado. Quando me desloquei a pé ao dito escritório para atender os familiares enlutados, passei por um grupo de homens que estavam junto ao portão principal da residência paroquial, não tendo eu nada deduzido das suas intenções. No meu gabinete de atendimento já estavam à minha espera duas filhas enlutadas, tendo eu começado a reunião com as orações do Pai Nosso e da Ave Maria como sufrágio; ao ouvir uma filha dizer-me de seguida “vamos ao que interessa”, apercebi-me do sentido pouco iluminante das trevas e das sombras da morte do seu pai Augusto; a outra filha interveio com muita fé, que eu jamais deixarei de reconhecer e agradecer; expliquei-lhes que nos dias seguintes (sexta-feira e domingo) tínhamos a Visita Pastoral do Bispo de Braga, Dom Nuno Almeida, e que eu seria intransigente em não passar declaração para o Padre Luís Aranha (beneditino que já foi Dom Abade de Singeverga e por quem sempre tive e tenho elevada consideração) poder vir celebrar a eucaristia exequial pelo Augusto Figueiredo Barbosa; eis que inesperadamente o meu gabinete foi invadido por homens liderados por um senhor que alto e bom som dizia que sabia muito bem o Direito Canónico e que por isso eu era obrigado a passar a solicitada declaração, epicentro do tsunami mediatizado, por eles desejado sem sentido; como a situação era cada vez mais de alta tensão, e os invasores não se ausentavam, resolvi eu sair do gabinete; quando eu já estava no corredor de acesso ao exterior, os invasores gritaram que o padre Fernando não sairia dali enquanto não chegasse a comunicação social a nível nacional! Mas esta tática embalde resultaria e até me fez pensar que só Deus sabe se o show off mediático serviria de sufrágio; mas eu como parte da solução jamais fugiria desta questão. Então, tive a nítida consciência que ali começava o meu pretório; fiquei sempre de pé, impávido e sereno, sempre de olhar fixo no chão para eu não perder o pé durante as horas incertas, que depois vim a saber que foram três; puseram-me um senhor como meu invisível “polícia” que me foi fazendo sermões conforme as inspirações eram suas ou dos outros; enquanto eu procurava o sentido da minha vida e da vida das pessoas que me rodeavam, nomeadamente António Garcia Torres e Deolinda Pinto (que foram exercitando a paciência e andando sobre as ondas ao ouvirem piadas, mentiras, insinuações, calúnias, insultos e berros salpicados por gritos histéricos), o meu invisível “polícia” perguntava-me se eu conhecia o pároco de Santo Tirso e se eu aceitava esta ou aquela proposta; mas do exterior ele ouviu a informação: há que aguentar, a televisão vai chegar! Quando o meu invisível “polícia” me repetiu várias vezes que eu era o demónio, então deixei falar a minha dor superada pelo amor e retorqui-lhe: olhe que o São Marcos, evangelista do Ano B que está a decorrer, gosta muito do Jesus que pastoralmente atraía e atrai demónios!

Como eu, nesse mesmo dia, às 15,30 horas, ia celebrar eucaristia exequial pela Maria Madalena Ferreira da Costa Coelho, o meu invisível “polícia” perguntou-me se eu também poderia celebrar pelo Augusto Figueiredo Barbosa; como era uma pergunta com muito sentido, respondi-lhe prontamente que sim ou até na eucaristia habitual das 18,30 horas; mas das águas turvas das turbas ouviu-se mais uma vez um não!

O meu telemóvel começou a tocar, a tocar, a tocar, mas eu só o ouvia porque nunca vi quem estava a chamar por mim, nem nunca olhei para o relógio; enquanto o António Garcia Torres (querido pai do nosso ilustre avense Padre Dr. António Sérgio Gouveia Garcia Torres) foi empurrado por um senhor que lhe pediu para escrever a declaração custasse o dinheiro que custasse, eu fui empurrado por uma senhora que gritava: “olhe para mim que eu sou mulher”; mas não olhei para não cair em tentação!

Como no Refeitório Social do nosso Patronato servem-se diárias económicas amorosamente bem confecionadas, muita gente, alertada pelas televisões, nem queriam acreditar no que se estava a passar; uma dessas incrédulas chama-se Fátima Faria, cozinheira e vice-presidente da Direção do Patronato, que ia dizendo: o padre Fernando, o António Garcia Torres e a Deolinda Pinto (todos diretores da referida instituição) podem perfeitamente fugir desse escritório sitiado! Mas dois comensais resolveram sair do Refeitório Social e comparecerem no local; talvez agastada pela reinante impunidade, uma dessas pessoas era advogada que também ouviu piedosamente umas piadas, talvez por não ter sido reconhecida como tal; concomitantemente compareceram junto ao Patronato a famigerada televisão e dois agentes do nosso Posto da Guarda Nacional Republicana; um chama-se Pedro Silva e disse-me que era de Penafiel; no Boletim Paroquial, nº88, página 16, chamei-lhes salvadores. Enquanto algumas pessoas, turbinadas pela magia da televisão, desopilaram o fígado descarregando a bílis sobre mim, antecipando assim o meu processo de beatificação, eu fui dizendo aos guardas o que eu já tinha dito, em vão, ao meu invisível “polícia”: conforme está escrito no nosso Boletim Paroquial nº86, página 30, o senhor Bispo de Braga, Dom Nuno Almeida, amanhã tem programado visitar às 9,30 horas o Santíssimo Sacramento na nossa igreja matriz e os Fiéis Defuntos nos nossos dois cemitérios; portanto, poderá celebrar a eucaristia exequial pelo Augusto Figueiredo Barbosa que é uma pessoa mais importante perante Deus e a sua Igreja do que um familiar enlutado que está dependente do voo aéreo; esta era a mesma motivação da outra referida família enlutada e que compreendeu o mérito salvífico do nosso sufrágio eucarístico e cujo filho chegou a tempo e me agradeceu pessoalmente. Quando o guarda da GNR me veio dizer que a família enlutada tinha aceitado tal proposta, o invisível “polícia” já nunca mais o vi e por isso aceitei ser entrevistado pela inocente jovem repórter, acompanhada de um solícito jovem operador de imagem televisiva; a eles e a todos (urbi et orbi) disse espontaneamente e alegremente aquilo que o Viktor Frankl ao falar de sucesso apelidou-o de efeito colateral, e que Chiara Lubich revelou como fecundidade de Jesus Abandonado: perdoo tudo a todos, gratuitamente e incondicionalmente! Ainda hoje reconheço que foi dito por inspiração divina e agora repito: o puro perdão, como um bem de primeira necessidade, não deve gerar amnésia, mas purificar a perversidade da absoluta subjetividade quando a nossa fé pessoal e eclesial é testada na comunhão pascal, pois é este o sentido do passado impassável nesta atual desertificação espiritual. Ao despedir-me dos dois jovens “jornalistas” da televisão disse-lhes que tinham sido indevidamente instrumentalizados; após terem encolhido os ombros foram na direção de Emaús à procura de sentido!

Quando livremente saí pela porta principal do Patronato, veio ter comigo a Rita Herdeiro, também diretora desta instituição e que me disse insistentemente: vá almoçar, pois já são 14,15 horas; então imediatamente me lembrei do funeral da Maria Madalena Ferreira da Costa Coelho, marcado para as 15,30 horas; constrangido pela falta de tempo para ir almoçar, imediatamente fui testemunhar a primordial comunhão hierárquica para com o Bispo de Braga, Dom Nuno Almeida, que estava em São Simão de Novais, com o então pároco Padre Mesquita, em Visita Pastoral; agradeço a comunhão telefónica do Arcebispo de Braga, Dom Jorge Ortiga e também as muitas mensagens, algumas bem humorísticas, dignas de serem esculpidas em pedra.

Ao ir celebrar a eucaristia exequial pela referida Maria Madalena, vi no adro tripés montados para filmar e microfones para alguém falar, mas graças a Deus filmaram e gravaram o silêncio loquaz da nossa fé pascal! Na homilia procurei dar o merecido sentido à Palavra de Deus.

Conclusão: somente às 17,15 horas é que eu comi este pitéu como almoço: um ovo estrelado dentro de um trigo! Depois fui celebrar a eucaristia das 18,30 horas tendo o Marco António, jovem que ia ser crismado no domingo 21 de janeiro de 2018, mostrado no seu telemóvel o que me tinha acontecido e como eu apareci calmo e sorridente e bem convincente ao dizer o essencial da mensagem pastoral; disse-lhe que foi uma pura graça de Deus! Enquanto na sacristia nós os dois conversávamos, eis que recebi um telefonema do nosso conselheiro Dr. Celso Campos, credível jornalista responsável pela comunicação social a nível paroquial; ficou inteirado do sentido do referido impassável passado, mas não se dispensou de partilhar a inquietante admiração das suas pequenas e queridas duas filhas; como ele sabia muito bem da longa e profunda preparação vivencial desta Visita Pastoral, disse-lhe que o trigo tem de morrer e agradeci-lhe os seus préstimos.

Mas a transfiguração deste passado impassável ainda não tinha terminado com a exequial eucaristia presidida pelo nosso Prelado bracarense e na qual eu concelebrei pelo eterno descanso de Augusto Figueiredo Barbosa; uma vez que a eucaristia de Sétimo Dia ficou marcada para terça-feira, dia 23 de janeiro às 18,30 horas, nesse dia eu resolvi ir confessar-me a um sacerdote para eu melhor ruminar a Palavra de Deus que ia partilhar; curiosamente também vi lá a confessar-se gente avense, pois a graça sacramental da reconciliação tem sentido confortante, sanante e até ressoante.

Mas não devo terminar sem perguntar ao meu caro paroquiano Matias, certamente animado de boas intenções, pois é genro do falecido Augusto Figueiredo Barbosa: que sentido tiveram as suas palavras pela televisão espalhadas aos quatro ventos, logo após ter chegado de almoçar? Em vez de ter falado do chavão rançoso do escândalo da pedofilia, porque não falou dos seus conhecimentos em Direito Canónico? Se pretendeu denegrir a Igreja Católica (nossa Mãe e pátria da Liberdade dos filhos de Deus por ser a Semper Reformanda), lembre-se que tais gravíssimos danos, laterais e colaterais, dificilmente serão atenuados!

Graças aos desígnios divinos, três semanas depois desta gestão conflitual, a nossa pastoral exequial voltou a envolver os mesmos familiares e ela ficou deveras otimizada e credibilizada com as palavras kairologicamente perfumadas e proferidas pela Irmã Maria da Glória Martins Pacheco, da Congregação das Filhas de São Vicente de Paulo e que é tia do meu caro paroquiano Matias; ela apesar dos seus 95 anos de idade feitos em 20/9/2017, veio de Peniche a fim de participar no funeral de seu irmão Adelino Martins Pacheco, que tinha falecido em 22/2/2018, com 87 anos de idade. Como ela já entrou muitas vezes pela porta da nossa igreja matriz onde partilhou várias vezes a sua grande fé (esteve 15 anos em Moçambique entre os pobres, quer antes quer depois do 25 de Abril de 1974), queira o meu caro Matias também entrar, pois embora a nossa porta não seja tão alta como a de Marco de Canavezes, por ela já entraram muitos Zaqueus, conscientes de que Cristo é a Porta sempre aberta por ser Ele a nossa Esperança.
Quando eu chegar à visão beatífica encontrarei os bem-aventurados Augusto Figueiredo Barbosa e Adelino Martins Pacheco e juntos cantaremos o Te Deum!

Neste cristianismo que aparenta apagamentos e enfermidades, uma flor que se dá com sentido não precisa de explicação.

Esta mensagem foi por mim lida e por sete pessoas observada na reunião ordinária do Conselho da Fábrica da Igreja e do Conselho Permanente do Conselho Pastoral Paroquial de Vila das Aves, ocorrida na noite de sexta-feira, dia 18 de janeiro de 2019, precisamente no dia em que ocorreu o primeiro ano deste passado impassável, que tem o sentido sanável da reconciliação cristã; por conta de Deus fico rezando pelos meus paroquianos a quem peço desculpa pela minha paulina insensatez que certamente fez e faz sofrer a quem eu queria e quero fazer entender o mistério da Comunhão dos Santos; por isso rezar também é amar.

Vila das Aves, 05 de fevereiro de 2019, primeira terça-feira do mês.

Padre Fernando de Azevedo Abreu