Armistício, Barca de Noé e Advento

No domingo passado, dia quatro de novembro de 2018, Portugal comemorou com garbo deslumbrante o armistício do Final da Primeira Guerra Mundial 1914-1918; então lembrei-me da nossa viagem à Arménia em julho de 2017 e das palavras ditas pela guia Sara: quando em 1914 a Alemanha declarou guerra à Rússia o governo turco do Império Otomano já tinha exterminado duzentos mil arménios durante os últimos vinte anos; mas no início desta guerra mundial o exército otomano foi comandado por um alemão que aumentou a brutal repressão e até planeou o extermínio, cujo centenário foi comemorado em 2015.

arca

Ao recordar que a Arménia tem no brasão de armas o celebérrimo monte Ararat (sempre coberto de neve no seu cume mais alto a 5.165 metros), este lugar foi, é e será de uma enorme importância estratégica militar, pois a região do Ararat, historicamente pertencente a um dos primeiros reinos da Arménia nos séculos IX e VIII A.C., foi palco de conflitos dos impérios Romano e Persa, Bizantino e Árabe, Otomano e Russo, sem esquecer que também passou pelo domínio da vizinha Geórgia, onde nós estivemos dois dias e meio; mas depois da Primeira Guerra Mundial, cujo centenário agora se comemora, o monte Ararat passou para a república da Arménia e de seguida para a União Soviética que atualmente o condivide com a Turquia (que chama ao Ararat o monte da Arca) ficando os Arménios, independentes desde 1991, somente como enorme prazer de poder ver facilmente as suas paisagens, certamente das mais belas do mundo.

Quem no verão quiser escalar o monte Ararat irá encontrar a 2.500 metros de altitude a reprodução da barca de Noé (ver foto), construída pela organização ecologista Greenpeace; considerando que este famoso e misterioso Ararat vem referido no livro do Génesis aquando do prólogo e do epílogo do dilúvio universal, então a Arménia orgulha-se deste farol do seu cristianismo adotado ineditamente como religião oficial do Estado no ano 301, pois os arménios consideram-se os progenitores da Humanidade. Embora os peritos digam que a barca de Noé encalhou no Ararat quando as águas do dilúvio baixaram, a mim não me interessa muito acreditar nestas proporções míticas, mas sim valorizar duas coisas: a semelhança da barca de Pedro com a barca de Noé, e a vivência julilosa de Noé como sinal de esperança, que é o tema do Ano Pastoral na nossa arquidiocese de Braga; por isso valorizo e agora aqui publico o refrão musicado para a nossa Caminhada de Advento que irá começar no próximo dia 2 de dezembro:

Ser Igreja é ser esp`rança,
Hoje em difícil maré;
Mas esta nossa aliança
É a barca de Noé.

Que este timoneiro, décimo patriarca desde Adão e homem justo, crente e fiel a Deus, nos inspire a saber remar em difícil maré para quem tenta viver a aliança batismal da fé.

Vila das Aves, 06 de novembro de 2018, primeira terça-feira do mês e dia litúrgico da Memória Obrigatória de São Nuno de Santa Maria.

Padre Fernando de Azevedo Abreu