Víctor, Nosso Herói e Mártir


6 de Janeiro de 2010 | Pároco

Víctor Manuel Gonçalves Carneiro Neto Ferreira, fez 51 anos de idade no dia catorze de Outubro de 2009.

Em quatro de Outubro de 1986 casou catolicamente nesta paróquia com Rosa da Conceição Ribeiro Ferreira Neto; a partir deste acontecimento nupcial ele deixou de trabalhar nos Móveis Silva (Burgães) e dedicou-se à profissão de ourives. Como Gerentes da ourivesaria Fernandes, patrocinaram a sessão cultural das XIII Jornadas Culturais de Vila das Aves, realizada em 16 de Outubro de 1999, e presidiram à Mesa de Honra; a foto nº1 foi tirada da página 169 da respectiva publicação.

[01] [02] [03] [04] [05] [06]

Dois dias antes desse sábado, o Víctor tinha feito 41 anos de idade. Para melhor justificar o título deste artigo, devo dizer que a ourivesaria Fernandes foi assaltada pela quinta vez na quinta-feira, dia dezassete de Dezembro de 2009, pelas dezoito horas e trinta minutos; desta vez o Víctor, ao aparecer na loja onde tinha ficado sua esposa sozinha por breves momentos, foi assassinado com dois tiros de pistola disparados pelos assaltantes que estavam a furtar os bens da sua ourivesaria; o Víctor, ao arriscar-se e sacrificar-se pelo colectivo indefeso, tornou-se o herói deste povo avense; ao perder a sua vida, o Víctor tornou-se também o nosso mártir; por isso, na sua Eucaristia Exequial, por mim celebrada às 16 horas no sábado, dia dezanove de Dezembro de 2009, recordei a reacção dos italianos quando o corpo de Aldo Moro foi crivado de onze balas de pistola-metralhadora, em 1978: “morreste pela nossa liberdade; agora temos um mártir”. Também a morte trágica do Víctor deixou ferida e humilhada esta querida Vila das Aves que não se calará.

A ti, Víctor, irei dedicar a capa do meu próximo livro que terá este mesmo título.

A ti, Víctor, agradeço teres sido testemunha do “Evangelho da Família” e teres tido a Eucaristia de Sétimo Dia na Liturgia da Sagrada Família de Nazaré que foi a primeira de tantas outras famílias santas.

Por ti, Víctor, pedi à tua Rosinha que me desse alguns testemunhos e fotografias; vão aqui publicados, após os meus silêncios.

Por ti, Víctor, celebrei a Eucaristia das 18 horas no passado dia um deste mês, Dia Mundial da Paz! Para que tua esposa e filho tenham alguma paz escrevo-lhes agora ”silêncio de rebelião”! Mas para que a tua luta heróica continue, escrevo também “silêncio de revolução”.

SILÊNCIO DE REBELIÃO

Perante este pensamento de Job (16,6) “ainda que fale, a minha dor não desaparece”, vou falar com a Rosa da Conceição Ribeiro Ferreira Neto e com seu filho Diogo Miguel, à luz do silêncio de rebelião. Fortemente enlutados e intoxicados com tantas toxinas difíceis de eliminar, convido-vos ao silêncio abismal que vos ajudará a entrar no mundo interior; virgem, inédito e indefinível, o silêncio de rebelião ao ser praticado é fonte de paz, conforto e liberdade porque conduz ao mistério da salvação de Deus que é encontro e comunhão.

Para a Rosa da Conceição partilho estas palavras do Padre João António Pinheiro Teixeira: “nas horas difíceis, os grandes desaparecem. Nos momentos de dor, os grandes tornam-se pequenos. Só os pequenos são grandes”. Rosa da Conceição, neste momento de tão grande dor, és uma grande mulher por seres tão humilde como foi a tua querida e saudosa mãe, Alice Ribeiro, que eu tão bem conheci!

Para ti, Diogo Miguel, tenho muita mais dificuldade em te ajudar perante a morte trágica do teu pai Víctor porque os teus vinte anos de idade podem facilmente esconder um desígnio divino; mas também te digo estas palavras do Irmão Alois (sucessor do Fundador, o Irmão Roger, que foi assassinado em 16/8/2005), actual responsável da Comunidade ecuménica internacional de Taizé (localizada em França), escritas na carta que ele dirigiu aos trinta mil jovens reunidos na Polónia nos passados dias 28,29,30 e 31 de Dezembro de 2009 e nos dias 1 e 2 de Janeiro de 2010: “Deus leva a sério as dúvidas e a revolta”.

SILÊNCIO DE REVOLUÇÃO

Sabendo eu que sou daqueles que pouco ou nada podem fazer perante a insegurança reinante, confesso-me hoje mais inconformado do que quando escrevi no Jornal de Santo Thyrso, publicado em 27/12/1996, e que depois inseri na página 178 do meu livro “Revisão aos 25”. Passados estes treze anos, o meu silêncio é de revolução perante a situação envolvente das estruturas, sistemas, códigos, leis, governos, deputados, políticos, juízes, magistrados, juristas e advogados. Confesso-me frustrado ao ver que em 2007 os deputados do PS e do PSD aprovaram alterações no Código Penal e no Código do Processo Penal que favorecem a criminalidade, incentivada pela impunidade. Mas também confesso-me consolado ao ler na Comunicação Social de vinte e dois de Dezembro p.p., que Paulo Portas, líder do CDS-PP, irá apresentar neste mês de Janeiro de 2010, na Assembleia da República, um conjunto de propostas de reforma das leis penais para assim melhorar as condições de segurança interna do nosso país.

O meu silêncio de revolução brada aos céus quando vejo que, em tribunal, não tem sido permitido a utilização como prova, das imagens de actividades criminosas obtidas através de sistemas de videovigilância não autorizados oficialmente!

O meu silêncio de revolução brada aos céus quando todos falam no descrédito da Justiça embrulhada!

O meu silêncio de revolução brada aos céus quando tanta gente já não quer ser testemunha, pois só lhe acarreta dissabores, penalizações, represálias, perdas de tempo e ambiente hostil em sede de audiência.

O meu silêncio de revolução brada aos céus quando os condenados, presos e marginais não devam ser obrigados a trabalhar em prol do bem comum.

O meu silêncio de revolução brada aos céus quando guardas e polícias, perante a violência dos assaltantes, tenham de estar a calcular a violência que devem usar.

O meu silêncio de revolução brada aos céus quando cada um tem de fazer justiça por conta própria como aconteceu, há menos de dois anos, para os lados do Rio Neiva, onde a G.N.R. pouco mais fazia do que lavrar ocorrências; por isso o proprietário de um estabelecimento, assaltado repetidas vezes, achou por bem montar um alarme não sonoro, mas ligado a telemóveis de um grupo privado de segurança; bem treinado e armado para tais situações, o grupo atingiu mortalmente um dos três assaltantes; perante o processo crime que lhe foi movido por ser alegadamente conivente, o proprietário jogou ao ataque processando o comando desse posto da G.N.R. e o Estado por omissão na prevenção devida, obrigatória e necessária da segurança de pessoas e bens.

O meu silêncio de revolução brada aos céus perante elevado número das “cifras cinzentas”, concernentes às participações de ilícitos criminais que se perdem nos labirintos processuais.

Como reacção proactiva desta população, e também como prova da sua cidadania, esta paróquia de São Miguel de Vila das Aves disponibiliza os seus serviços de atendimento no Escritório para se fazer aquilo que em sociologia e em criminologia se chama “cifras negras” através de inquérito de vitimização; então, aquelas pessoas que são vítimas de ilícitos criminais, mas que não os vão participar às respectivas autoridades (porque já não acreditam no sistema judicial, etc, etc, etc), poderão passar pelo Escritório Paroquial e preencher confidencialmente uma folha onde se registará a ocorrência, dia, hora, local e pormenores.

TESTEMUNHOS E FOTOGRAFIAS

Apenas pedimos justiça.

Victor Manuel foi sempre um bom pai, marido, amigo e companheiro para os bons e maus momentos.

Sempre pronto a ouvir, a aconselhar e a apoiar todos os que o rodeavam!
Era um homem de Bem, destemido (foto nº2).
Nunca teve medo de falar e lutar pela verdade e contra a mentira e as injustiças.

Odiava o mal e todos os que o personificavam.
Era um Homem de Fé (foto nº3) e de Amor ao Próximo.
Nunca dizia não à caridade.
Vivia para a Família e para o trabalho; adorava o que fazia (foto nº4) e fazia-o sempre na perfeição.

Adorava a vida e vivia-a com alegria.
É assim que nós o vamos continuar a recordar.
Viverá para sempre connosco nos nossos corações e procura-se seguir o seu exemplo e concretizar todos os seus sonhos.

Apenas pedimos Justiça a quem tem o poder de criar as leis e de as aplicar.
Que não fiquem impunes os criminosos! Que exemplo daremos aos nossos filhos, se todos os dias eles vêem que o crime compensa?
A Família.

Fatídico fim de tarde.

“COM A MORTE DIANTE DOS OLHOS A QUESTÃO DO SIGNIFICADO DA VIDA TORNA-SE INEVITÁVEL” (Bento XVI, Spes Salvi)
Dezassete de Dezembro de 2009!
Era quinta-feira, ao fim da tarde.
O frio fazia sentir-se e a noite aproximava-se.
Depois de um dia de trabalho, quando o descanso se impõe para todos, fui surpreendida com o trágico acontecimento.

Os gritos de desespero serão difíceis de esquecer e as imagens, essas, jamais serão apagadas.

Os corações gelaram de dor.
A INSEGURANÇA ESTAVA INSTALADA.
“Vivem somente os que lutam”, Vítor Hugo.
“Cada momento da vida é um passo para a morte”, Pierre Corneille.
Convicta que o Senhor VÍCTOR sempre foi um lutador, como poderia ficar indiferente?…

Tal como o mártir São Vítor, padroeiro dos prisioneiros e exilados, TAMBÉM O NOSSO VÍCTOR FOI MÁRTIR POR UMA JUSTA CAUSA.
Permanecerá vivo na memória de todos quantos o conheciam.

Aos que lhe são mais próximos, fica a certeza de que:
“A fé é tão necessária para a vida como a raiz é para a árvore”, Santo Agostinho.

“A esperança é o último remédio que a natureza deixou para todos os males”, P.e António Vieira.

Os familiares e amigos terão sempre presente que:
“A angústia de ter perdido, não supera a alegria de ter um dia possuído”, Santo Agostinho.
Drª Clara Freitas.

Sinto-me privilegiada.

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.

O Victor foi um amigo incomparável!

Conheci-o há muitos anos, quando viajávamos no mesmo transporte público, que nos levava ao emprego. Pessoa simples, bem-disposta e educada. Maia tarde conheci melhor o Victor e a sua família.

Hoje recordo-o com saudade e lamento profundamente a sua morte. Consola-me saber que, em vida, sempre nos aceitamos nas nossas diferenças, deixando que a amizade crescesse naturalmente.

Sinto-me privilegiada por ter pertencido ao seu grupo de amigos!

Este Homem era muito frontal, verdadeiro, corajoso e com um grande sentido de protecção à família.

A dor de o perder só é suavizada pela fé:
“Caminharei na terra dos vivos, na presença do Senhor”.
“Estai comigo, Senhor, no meio da adversidade”.
Profª Ilídia Novo.

Memórias de um amigo.

Amigo Víctor (Vitinha, só para alguns), “caíste e jamais te levantaste”.

Eu, não estava por perto para te “deitar a mão”, mas hoje recordo-te em MOMENTOS ÚNICOS.
A partilha do teu saber, do teu estar, do teu agir, são marcas que jamais o tempo apagará.

Mirandinha, como tu me abordavas e tratavas, era fruto de uma verdadeira amizade, porque sempre foste amigo, companheiro, compreensivo, paciente, bom e respeitador.

Foste um herói ao enfrentar e defender, não só os valores materiais, mas acima de tudo os valores humanos. Conhecendo-te como te conhecia tenho a plena certeza que estes últimos falaram mais alto.

Foste para mim o MODELO de amigo que qualquer pessoa gostaria de ter.

Tu eras e serás SEMPRE meu amigo. Onde quer que te encontres sabes que estou contigo e com os teus.
DESCANSA EM PAZ!

Este pequeno testemunho que partilho com os que cá ficaram é fruto da “nossa (con)vivência” (fotos nº5 e nº6).
Joaquim Miranda (Mirandinha).

Até sempre, Sr. Víctor.

Nem sempre por palavras conseguimos transmitir o que pensamos e sentimos. No entanto, é através delas que podemos neste momento recordar e prestar uma modesta homenagem ao Sr. Víctor.

Por mim será sempre recordado como uma excelente pessoa, bem-disposta, comunicativa e conversadora, com quem convivi quase diariamente à hora do almoço.

Guardarei na lembrança a unidade, que muito admirava, daquela família durante a refeição.
Margarida Costa.

Víctor, foste uma estrela.

O Sr. Víctor era uma pessoa exemplar, amigo, trabalhador, alegre, respeitador e simples. Gostava de conviver e transmitir a sua alegria e boa disposição. Foi uma pessoa que sempre acompanhava e convivia com a família. Acho que se pode dizer: o Víctor era uma estrela!

Estrela, sim, porque foi luz que brilhou para nós! Luz para as famílias, como a minha! Luz para os trabalhadores, como eu! Luz para os peregrinos de hoje que têm de se confrontar com os Herodes de agora, também ávidos de matar!

Mas estou contente porque o Víctor encontrou o mesmo Jesus Que os Magos do Oriente encontraram quando seguiram a Estrela. Os Magos O encontraram em Belém! O Víctor encontrou-O na celeste Jerusalém!

Víctor, sempre serás uma estrela a brilhar para nós! A nobre causa pela qual morreste jamais será esquecida!
Fátima Faria.

Víctor, um cidadão sempre atento, exigente e cumpridor.

Para mim não é fácil, hoje falar do Víctor, aliás, Víctor ourives, pois era assim que era conhecido e também era assim que o meu telemóvel identificava as suas chamadas.

Quase sempre que o Víctor me ligava era para avisar e para tentar a resolução de situações que exigiam a intervenção dos serviços da Junta de Freguesia e/ou da CMST.

O Víctor era um cidadão sempre atento a tudo que se passava à sua volta e muito crítico quanto às questões que se prolongavam e não se resolviam dentro de um período razoável. Ou era por causa da limpeza nas ruas, ou pelos buracos nos passeios, enfim tudo que à sua volta merecia reparos. Nunca deixava de alertar para tudo que poderia denegrir a imagem da Vila que ele também amava.

O Víctor era um cidadão Avense, que apesar de não ser natural da Vila das Aves, não deixava por mãos alheias a sua cidadania. Exigente, mas também cumpridor quanto às suas obrigações.

À hora do jantar, de segunda a quinta-feira, éramos clientes assíduos do “Bino Machado”, restaurante de referência na nossa Vila. Ocupando mesas diferentes, mas próximas e com o aviso de “Reservado”, conversávamos muitas vezes sobre o assunto do dia.

Muitas vezes me divertia com as serenas discussões sobre o futebol: a Rosinha e o Diogo (“ferrenhos” Portistas) e o Víctor (grande Benfiquista) nunca estavam de acordo quanto às arbitragens polémicas da semana que envolviam o Porto ou o Benfica. Eu, como desapaixonado Sportinguista, ia admirando o fórum improvisado que ali mesmo se desenvolvia, também com as intervenções saudáveis do Sr. Machado (Sportinguista), a minha esposa (Benfiquista) e o David (Portista).
Agora, nada será igual.
Carlos Valente.

Vila das Aves, 5/1/2010 (primeira terça-feira do mês).

Padre Fernando de Azevedo Abreu.

Post2PDF |